SOBRE A COMUNICAÇÃO ASSÍNCRONA

SOBRE A COMUNICAÇÃO ASSÍNCRONA

A ascensão da internet como poderosa mídia para a interação social nos nossos dias viu a disseminação da chamada “comunicação assíncrona”. É a famosa comunicação por textos (ou, por vezes, de mensagem de voz sem um diálogo), em que a relação entre a fala de A e a fala de B se dá sem uma conjunção no tempo e no espaço, sem uma imediaticidade entre estímulo e resposta, em outras palavras, sem uma sincronia.

Isso desperta novos problemas e novos hábitos. Como, por exemplo, se perguntar se Fulano “já leu” a mensagem, e saber em que medida pretende fazer algo a respeito. Problemas simples que poderiam ser resolvidos se as pessoas estivessem de fato numa relação comunicativa surgem.

A verdade é que nós, seres humanos, somos animais de matilha. Nós não temos dentes ou garras, nem sabemos cavar buracos ou subir em árvores muito bem, de forma que nossa vantagem evolutiva é o fato de nos conectarmos uns com os outros e agirmos em conjunto.

Uma parte do nosso cérebro, uma das mais recentes evolutivamente – o neocórtex – diz respeito a essa incrível capacidade que temos para a linguagem e para a comunicação. Em outras palavras, é o fato de sermos bons em nos comunicar uns com os outros que ajudou a nos tornar a espécie dominante no planeta.

Os seres humanos funcionam através de corregulação emocional. Quando estamos presencialmente com uma pessoa e conversamos com ela, nós emitimos pequenos sinais faciais e corporais que espelham o que a outra pessoa está sentindo e pelo que está passando. Além, é claro, de podermos falar “no calor do momento” algo que diz respeito ao que podemos corregular.

Existe um certo contágio na vida social humana. Quando estamos entre pessoas assustadas, ficamos assustados. Quando estamos entre pessoas enfurecidas, tendemos a ficar também enfurecidos. Não há nada demais nisso, e vários comportamentos de massa podem ser explicados por essa simples noção de contágio.

Mas isso explica também por que é tão importante essa corregulação. Se estamos ansiosos e conversamos com um amigo, ele ajuda em nossa regulagem emocional, dizendo que sabe do que estamos falando, emitindo sinais de tranquilidade e reconhecendo nossa aflição. Nós nos sentimos compreendidos e também nos sentimos melhor.

Para usar numa pergunta uma expressão que ouvi de um amigo recentemente, quanto do nosso sofrimento psíquico não se deve em grande medida à atomização na sociedade liberal-burguesa? A comunicação assíncrona concorre para isso. Ela nos rouba da possibilidade de experimentar um tempo conjunto.

Assim como podemos falar em idioletos para a maneira peculiar como cada indivíduo vivencia a língua e forma uma espécie de dialeto próprio, também é como se vivessemos em “cronoletos”, cada um com seu tempo, esbarrando na disposição dos outros para responder às nossas mensagens.

A ausência de corregulação emocional nos torna vítimas mais fáceis de estados psíquicos negativos poderosos, como a ansiedade e a depressão, que muitas vezes são apenas uma bola de neve que não foi parada quando ainda era pequena.

Além do quê, a ausência de corregulação numa comunicação dá margem a uma expressão que, se vamos analisar com clareza, é bem mais cruel. As pessoas escrevem em mensagens (especialmente em grupos de What’sApp) barbaridades que jamais diriam numa conversa educada; depois, é claro, acreditam no que escreveram e adotam condutas impensáveis para uma época pré-internet.

Por isso, por que não pegar o telefone e passar 15 minutos conversando com um bom amigo de voz para voz?