QUANDO RELER UM LIVRO?

      A questão é de difícil resposta; pelo menos, isso é o mínimo que se pode dizer. Afinal, todos temos uma pilha de livros para ler, de modos que, a menos a princípio, não faria sentido se deter sobre uma mesma obra duas ou mais vezes.

    Contudo, essa primeira percepção pode ser – como frequentemente é – enganosa. A verdade é que a releitura de um livro descortina tantas possibilidades interpretativas, para não falar nada de um prazer peculiar, que vale a pena considerar e entreter a possibilidade de dar mais uma lida num livro que despertou certo comichão.

      Algumas escolhas parecem fáceis. Se a pergunta fosse: “Você prefere ler 10 vezes Hamlet ou ler os 10 últimos livros de Sidney Sheldon uma única vez?” Por mais que possa haver algo a ser dito em prol do romancista e roteirista norte-americano, a alternativa parece bastante evidente – a primeira escolha, por favor.

    Mas há algo a ser dito inclusive sobre a releitura de obras notoriamente fracas. Quando relemos, já não nos atemos aos desdobramentos do enredo. Em certa medida – e é preciso enfatizar isso, em certa medida – o elemento de surpresa já desapareceu do nosso horizonte de leitura. Então é possível aprender com o livro de uma maneira que não imaginaríamos.

     Dorothea Brande, em seu ótimo Becoming a Writer, chama atenção para o fato que ler como um escritor significa sempre ler duas vezes (ou mais). Estamos de tal forma imersos no mundo dos livros como leitores, que nos acostumamos a enxergar nossos amigos impressos com esses óculos. Lemos uma vez e consideramos que extraímos tudo o que há para ser apreendido da obra, mas esse é um redondo engano.

     Se nossa intenção é apenas um prazer mais ou menos efêmero, então devemos ler apenas uma vez. Mas, como já dissemos, se temos a intenção de aprender com o material, então é forçoso reler.

  Algumas obras são de tal modo densas que seria ingênuo supor que podemos extrair delas tudo que poderíamos numa única leitura. Isso nos (re)conduz ao dilema inicial: quando reler?

  Schopenhauer recomenda reler imediatamente qualquer livro que nos marque. Com a segunda leitura, outros ãngulos podem ser observados, e uma visão mais completa do todo se forma para nós.

  Esta reflexão me foi sugerida por minha experiência de leitura do ano passado. Em 2018, li em grandes quantidades, mas apenas uma única vez cada livro. Em outras palavras, minha experiência com os livros no ano que passou foi a de um leitor. Este ano, estou conscientemente buscando uma experiência um pouco diferente, como escritor. Estou relendo alguns livros que se sobressaem.

    A vivência tem sido de aprendizado de algumas técnicas e de outros aspectos não propriamente técnicos. Tem sido um contato mais íntimo com autores relevantes para mim, e, embora ainda seja cedo para dizer, a releitura é de fato uma prática que pretendo incorporar no meu procedimento de consumo de livros.

     Consumo de livros? A expressão soa um pouco estranha. De qualquer forma, em economia é possível falar do “consumo produtivo” (no caso, de uma máquina) e, assim, podemos dizer que a releitura é uma maneira de consumir produtivamente uma obra.

     É claro que às vezes encontramos o “jackpot”, ou acertamos o “bingo” da releitura. É quando relemos um livro que nos diz muito individualmente e que nos ensina muito também como escritores (ou de qualquer outra forma). Aí é o momento da felicidade. É como se encontrássemos um amigo querido que não vemos há tempo. É possível conversar com ele diversas e diversas vezes. E parece que nunca nos cansamos.

    Nesse caso, temos mais do que um livro. Um livro é sempre uma forma de transmissão, alguma maneira de tradução e atualização de conhecimento. Porém um desses livros que relemos e relemos se torna uma fonte de sabedoria, que incorporamos ao nosso repertório espiritual e que se torna praticamente uma segunda natureza.