A editora curitibana independente L-Dopa começou suas atividades em 2005 com a publicação do livro Você não pode ser neutro num trem em movimento do historiador e ativista Howard Zinn. O espírito de inconformismo perante o estado de coisas, a disposição para trabalhar por mudanças positivas e até mesmo um certo otimismo como constatação da impermanência do mundo são a verdade dessa obra, norteando o direcionamento que queremos dar para nossa editora.

 Ao longo dos anos publicamos livros oscilando entre um polo de política (marcadamente libertária, valorizando a discussão sobre tópicos evitados pelo discurso dominante, aprofundando reflexões para dar vida ao radical) e um polo de literatura (canibalizando autores estrangeiros mediante traduções antropofágicas, encontrando arestas ocultas em clássicos incontestáveis e dando vazão a uma produção criativa, crítica e criteriosa).

  Somos uma editora composta por leitores e publicamos livros que gostaríamos de ler. Para nós, o leitor é alguém com quem podemos fortalecer uma amizade ao propor livros relevantes – pois sabemos que um livro pode mudar a vida de uma pessoa. Consideramo-nos os sucessores tradicionais de uma linhagem de artistas e de filósofos que nos legaram obras de inestimável valor. Somos, igualmente, uma abertura para o agora; queremos dialogar com o presente.

  Organizamo-nos de forma independente e tomamos decisões em conselho. Costumamos dizer que gostaríamos de retomar o discurso da “criatividade” da direita para o da transformação social. Para nós, os livros são uma síntese de forças num objeto universal: parte imaginação, para que a vida seja colorida pelo sonho; parte memória, para que o tempo permaneça sendo invenção.

Escritor, tradutor, editor.

Reza a cartilha da ideologia neoliberal que cada um apresente sua “biografia” como uma sequência ininterrupta de vitórias, apenas temperadas, quem sabe, com algum breve revés logo vencido pelo herói de um épico em suas hercúleas tarefas. O sujeito da sociedade do desempenho quer apresentar um curriculum vitae em que “aparece bem na foto” para impressionar futuros empregadores e porque sua autovalidação depende do juízo sempre caprichoso do Outro. Acontece que condicionar o próprio valor à opinião alheia é convite ao ressentimento. Melhor não ir por aí.

Nasci em 1980 em Nova York, porque meus pais eram médicos brasileiros estudando residência no exterior; mas ainda pequeno voltei para o Brasil, estabelecendo-me em Curitiba.

Quando eu era estudante do primário, escrevi uma adaptação para teatro infantil de Cândido de Voltaire. A peça foi censurada pelas zelosas freiras do colégio; mas acho que aí eu já sabia que viveria entre livros. Se ainda não sabia, fiquei sabendo quando li Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, nas carteiras escolares.

No ensino médio, fiz intercâmbio por um ano para o Japão. Lá pratiquei o kendô, a caligrafia e descobri que – embora loiro e de olhos azuis – minha alma é japonesa.

De volta ao Brasil, ingressei na faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, mas ali não era meu lugar. Logo depois, tentei vestibular de volta, dessa vez para o curso de Letras (também da UFPR). O problema não era o curso. Após me aborrecer mais alguns anos, abandonei a universidade de vez. Quem quiser discutir o papel do ensino na vida dos seres humanos pode ler a Sociedade Desescolarizada de Ivan Illich; quem quiser pensar nas relações entre universidade e perversão pode ir à teoria do discurso de Lacan.

Mas parte essencial da minha formação foi no punk: tocando em bandas (toquei no White Christian Disaster e no Russian School of Ballet), fazendo fanzines (editei o Apocalipse Wow na década de 90), fazendo amigos (como Klaus Weber, que teria a ideia e o ímpeto de lançar o Howard Zinn pela L-Dopa…).

Assim, após abandonar a universidade, encontrei meu veio literário e escrevi A Antibruma, novela de estreia, em 2008 (seguida por O Equilibrista e um livro de poemas chamado Quatro Quadras, em edição limitada). Publiquei ainda, de pena própria, duas novelas de ficção especulativa em 2015 (A Sintaxe das Galáxias e O Caleidoscópio de Calina) e uma antologia de contos em 2016 (A Encruzilhada); é também de 2016 um livrinho meu com 3 ensaios em que costuro filosofia e psicanálise. Há, é claro, as traduções da L-Dopa (Mark Twain, J-K. Huysmans, Baudelaire, Strindberg etc) – de qualquer forma, a partir de 2008 os eventos da minha vida se confundem com os lançamentos da editora.

Parte da tentativa de humanizar o roteiro de um biografado segundo os cânones do gosto vigente inclui esforços para tentar fazê-lo parecer mais humano: Fulano é filósofo, mas gosta de andar a cavalo em seu tempo livre com seus dois filhos pequenos etc. Isso não me interessa. Sou praticamente um monomaníaco. Sou um homem de letras (escrevo, traduzo, edito e coisas afins) e não há nenhum “traço de personalidade” para além disso.