QUANDO RELER UM LIVRO?

      A questão é de difícil resposta; pelo menos, isso é o mínimo que se pode dizer. Afinal, todos temos uma pilha de livros para ler, de modos que, a menos a princípio, não faria sentido se deter sobre uma mesma obra duas ou mais vezes.

    Contudo, essa primeira percepção pode ser – como frequentemente é – enganosa. A verdade é que a releitura de um livro descortina tantas possibilidades interpretativas, para não falar nada de um prazer peculiar, que vale a pena considerar e entreter a possibilidade de dar mais uma lida num livro que despertou certo comichão.

      Algumas escolhas parecem fáceis. Se a pergunta fosse: “Você prefere ler 10 vezes Hamlet ou ler os 10 últimos livros de Sidney Sheldon uma única vez?” Por mais que possa haver algo a ser dito em prol do romancista e roteirista norte-americano, a alternativa parece bastante evidente – a primeira escolha, por favor.

    Mas há algo a ser dito inclusive sobre a releitura de obras notoriamente fracas. Quando relemos, já não nos atemos aos desdobramentos do enredo. Em certa medida – e é preciso enfatizar isso, em certa medida – o elemento de surpresa já desapareceu do nosso horizonte de leitura. Então é possível aprender com o livro de uma maneira que não imaginaríamos.

     Dorothea Brande, em seu ótimo Becoming a Writer, chama atenção para o fato que ler como um escritor significa sempre ler duas vezes (ou mais). Estamos de tal forma imersos no mundo dos livros como leitores, que nos acostumamos a enxergar nossos amigos impressos com esses óculos. Lemos uma vez e consideramos que extraímos tudo o que há para ser apreendido da obra, mas esse é um redondo engano.

     Se nossa intenção é apenas um prazer mais ou menos efêmero, então devemos ler apenas uma vez. Mas, como já dissemos, se temos a intenção de aprender com o material, então é forçoso reler.

  Algumas obras são de tal modo densas que seria ingênuo supor que podemos extrair delas tudo que poderíamos numa única leitura. Isso nos (re)conduz ao dilema inicial: quando reler?

  Schopenhauer recomenda reler imediatamente qualquer livro que nos marque. Com a segunda leitura, outros ãngulos podem ser observados, e uma visão mais completa do todo se forma para nós.

  Esta reflexão me foi sugerida por minha experiência de leitura do ano passado. Em 2018, li em grandes quantidades, mas apenas uma única vez cada livro. Em outras palavras, minha experiência com os livros no ano que passou foi a de um leitor. Este ano, estou conscientemente buscando uma experiência um pouco diferente, como escritor. Estou relendo alguns livros que se sobressaem.

    A vivência tem sido de aprendizado de algumas técnicas e de outros aspectos não propriamente técnicos. Tem sido um contato mais íntimo com autores relevantes para mim, e, embora ainda seja cedo para dizer, a releitura é de fato uma prática que pretendo incorporar no meu procedimento de consumo de livros.

     Consumo de livros? A expressão soa um pouco estranha. De qualquer forma, em economia é possível falar do “consumo produtivo” (no caso, de uma máquina) e, assim, podemos dizer que a releitura é uma maneira de consumir produtivamente uma obra.

     É claro que às vezes encontramos o “jackpot”, ou acertamos o “bingo” da releitura. É quando relemos um livro que nos diz muito individualmente e que nos ensina muito também como escritores (ou de qualquer outra forma). Aí é o momento da felicidade. É como se encontrássemos um amigo querido que não vemos há tempo. É possível conversar com ele diversas e diversas vezes. E parece que nunca nos cansamos.

    Nesse caso, temos mais do que um livro. Um livro é sempre uma forma de transmissão, alguma maneira de tradução e atualização de conhecimento. Porém um desses livros que relemos e relemos se torna uma fonte de sabedoria, que incorporamos ao nosso repertório espiritual e que se torna praticamente uma segunda natureza.

O MELHOR CONSELHO PARA ESCRITORES QUE JÁ OUVI

              A internet está repleta de conselhos para escritores. Há dicas de todos os tipos, para todos os gostos, um oceano de informações bem-intencionadas para fazer você escrever melhor.
               Eu, de minha parte, já consumi diversos livros sobre as técnicas do escritor, e já me meti em site após site buscando algum pedaço de sabedoria que me ajudaria a incrementar minha literatura.
           Posso dizer, sem sombra de dúvida, que um conselho em especial fez uma diferença significativa para mim. E é algo que tem muito valor para mim porque veio da boca de um escritor que admiro bastante.
              O ano era 2016 e eu me sentia um pouco esgotado com relação à minha escrita. Era como se eu simplesmente não conseguisse dar a forma que eu queria aos meus pensamentos, e o que eu escrevia nem sempre me satisfazia.
              Foi quando eu encontrei um vídeo de Ray Bradbury, falando sobre a vida de escritor. Bradbury é o autor de “Fahrenheit 451” e “As Crônicas Marcianas”, e era, basicamente, um herói das minhas leituras juvenis. Ele dava uma dica muito simples e que basicamente mudou a maneira como eu escrevo.
              Em poucas palavras, ele começava por falar de sua desconfiança com relação a escrever romances logo de cara. Nas palavras dele, você pode passar um ano inteiro escrevendo um romance e ele não fica muito bom. Mas – e aí vem a dica valiosa – você pode escrever no mesmo tempo uma grande quantidade de contos. Diz Bradbury:
             “Escreva um conto por semana durante um ano. É impossível escrever 52 contos ruins um atrás do outro.”
           Esse insight é extremamente frutífero. Porque muda o foco do seu processo de escritor. Quando você está tentando escrever um romance, você passa meses e meses sem saber exatamente aonde está indo. Mas quando você escreve um conto por semana, todo fim de semana você tem algo para mostrar para seu círculo de amizades, e você recebe feedback.
              Você se sente bem! Então, em termos psicológicos, você desenvolve uma relação mais positiva com a literatura que você produz. Além disso, note que a frase dele diz que é impossível produzir 52 contos ruins na sequência.
              Porque você vai escrever contos ruins. Principalmente no começo, quando você está pegando o jeito da Forma. Haverá flutuações de qualidade. Mas não faz mal. Porque toda semana você está escrevendo mais um, e lá pela 30ª ou 40ª semana sai um conto que é fenomenal.
              Não é preciso ler Hegel para saber de dialética, e Ray Bradbury entendia do assunto; porque quantidade vira qualidade.                        
              Todos esses contos que você vai escrevendo, eles se acumulam, até que há um salto e finalmente você começa a escrever o que você realmente é.
               Há, em algum momento do processo, um instante de transformação, assim como a água acumula calor e, aos 100°, transforma-se em vapor, muda de natureza.
                Assim foi que, em 2017, eu coloquei uma folha de papel com 52 itens na porta do armário do meu quarto e toda semana eu anotava o título do conto que eu escrevia. Aos poucos o trabalho adquire um ritmo próprio e eu aprendi com minha própria experiência – não existe nenhum outro tipo de aprendizado de verdade na escrita, nem, assim suspeito, em qualquer outra área.
               Estamos em 2019 e mantenho essa disciplina de pelo menos um conto por semana. Pretendo seguir com essa “dieta” pelo menos por vários anos ainda e, periodicamente, estou fazendo descobertas novas.
               Se você se dedica – em qualquer medida que seja – à literatura, por que não considerar esse valioso conselho de Ray Bradbury? Lembre-se que quantidade vira qualidade, e invista na formação de um hábito de escrita.
               (Os 10 melhores contos da minha experiência de 2017 serão transformados no livro “Minha Consciência & outros contos”, a ser lançado pela L-Dopa ainda este ano.)

Podcast – COMO PREVENIR A DEPRESSÃO COM WINESBURG, OHIO

COMO PREVENIR A DEPRESSÃO COM WINESBURG, OHIO 

            O que eu aprendi lendo livros de vendas e de marketing é que basicamente você tem que apresentar um problema e, quando a outra pessoas concordar que tem aquele problema ali, você oferece a solução. Na política não é muito diferente. Ou como diz Walter Benjamin, “convencer é conquistar sem concepções.”

            Não que tenha algo de particularmente errado com esse tipo de retórica. Quero dizer, se cáries são um problema, por favor me permita apresentar a pasta de dentes que estou vendendo. É claro, é um pouco sacanagem quando se começa a esticar a premissa, tipo: você não tem namorada? Ora, é por causa do seu mau hálito; permita-me apresentar minha pasta de dente e assim por diante.

            Pois bem. Eu estou aqui para vender meu peixe, que é o livro “Winesburg, Ohio”, do Sherwood Anderson, que eu traduzi em 2014. O livro é de 1919, tem quase aí um século. É literatura das mais finas. É um verdadeiro clássico da literatura norte-americana e mundial em geral. Alguns livros como “Winesburg, Ohio” são escritos a cada século. Mas não muitos. Pois é.

            Então, para eu vender meu peixe – um peixão, na verdade – eu vou tentar articular isso com um problema extremamente moderno, extremamente contemporâneo, que é a depressão. Basicamente, eu vou tentar argumentar que a Arte (com “A” maiúsculo) é uma espécie de lenitivo, uma espécie de remédio para a melancolia.

            Certo. Meu plano tem uma boa chance de dar certo; se, por nenhum outro motivo, porque nós todos ou já tivemos depressão, ou conhecemos alguém que tem. E se você não conhece, até o fim da vida pode ter certeza que vai conhecer. A Organização Mundial de Saúde veio a público recentemente para caracterizar a depressão como a doença mais incapacitante de todas, um fenômeno mundial.

            Uma das coisas complicadas com relação à depressão é que é um estado negativo a respeito do qual parece que não tem nada que a gente possa fazer. Quero dizer, se você está com raiva de alguém, pode se acalmar que a coisa passa, ou se você está sentindo medo, pode se tranquilizar de alguma forma e ver o medo passar. Raiva e medo são sentimentos negativos que passam. E a depressão? A depressão parece que não tem nada que dê para a gente fazer. Parece que é um sofrimento que é necessário tolerar até que vá embora, por conta própria.

            É claro, existem depressões que precisam de acompanhamento médico, que são depressões clínicas, mas estou falando de uma melancolia um pouco mais leve.

            Tipo assim, existe uma sequência de fatores.

            Como começa? O estado inicial é essa sensação de que falta alguma coisa, de que precisaria ter algo, de que não temos permissão para sermos felizes. Eu adiantaria uma ideia bastante radical, nesse quesito, de que temos agora, neste exato instante, cada um de nós, tudo de que precisamos para encontrarmos uma certa paz, senão absoluta, ao menos relativa. Mas o estado inicial desse processo é justamente de que algo falta.

            É aquela coisa: se pelo menos eu tivesse dinheiro… se pelo menos eu tivesse uma namorada… se pelo menos eu tivesse um carro… A gente sente que algo falta. Mais do que isso. A gente sente que algo falta e que a resposta está lá fora. Algo falta e essa coisa pode ser alcançada no mundo.

            Aí a gente faz contato. A gente vê uma roupa bonita ou uma pessoa atraente, a gente vê um objeto que parece valioso ou mesmo a gente faz contato com uma ideia na nossa mente. E aí a gente faz esse contato e a gente pode gostar disso, ou  a gente pode desgostar.

            Você vê um cara com uma camiseta. E você gosta dessa camiseta. Aí você quer ter uma pra você, você consegue uma, você vai atrás e assim por diante.

            No caso da depressão, o contato é negativo. Você trava contato com algo no mundo que te deixa desconfortável. Ou você tem uma ideia – vem uma ideia e entra na sua cabeça, e ela é uma ideia que te faz sentir mal, sabe como?

            Aí você se sente mal e pensa: o que há de errado comigo? Notem que é um passo rumo à apropriação desse mal. A gente pensa: EU sou o único que se sente assim. Porque EU sou o único que perdeu o emprego… ou EU sou o único que perdeu a namorada… ou EU sou o único que tenho esse problema… e assim por diante.

            E o ciclo se repete, começando desde o começo. Primeiro vem a falta, o contato, o gostar ou não gostar, e aí essa apropriação que diz EU. E assim o ciclo vai se repetindo, até que os pensamentos se tornam verdadeiramente obsessivos.

            É claro que tem uns elos mais fracos nessa sequência, que podem inclusive ser desfeitos. Eu chamo atenção para a passagem entre a sensação no corpo e o pensamento.

            Vejam bem: mau humores ou sensações desagradáveis no corpo são inevitáveis. A ideia não é viver sem eles. Isso é impossível. Mas há uma oportunidade para quebrar a cadeia.

            O problema não é a sensação ruim, o problema é como reagimos a esse humor subjacente, o problema é essa camada a mais que colocamos por cima da sensação ruim.

            Porque a partir do momento que lidamos com o pensamento ruim, tendemos a pensar “há alguma coisa errada comigo”.

            Um dia você não quer sair da cama e você pensa: Ah, qual é o problema comigo? O que EU fiz de errado? Como se as outras pessoas amassem plenamente a vida e pulassem da cama como nos comerciais da TV.

            O ponto é procurar não acrescentar nada à sensação no corpo. O ponto é tentar apenas observar o que está acontecendo. O problema da depressão é precisamente que o cara tenta pensar e resolver no pensamento, aí fica pensando “sou um cara horrível” “não sou” “sim sou” “não sou” “sim sou”, mas quem já teve depressão sabe que é impossível pensar ou raciocinar sua saída de uma. É impossível pensar o caminho para além de uma depressão.

            Uma vez que um estado ou humor surge, ao invés de empurrar para longe, ao invés de tentar descobrir intelectualmente o que está errado, o que está errado com MINHA vida e essas coisas todas, nós observamos o humor ou o pensamento inicial “OK é assim que se sente quando se está pra baixo”.

            Geralmente quando eu começo a ficar deprimido, sinto meus ombros ficando tensos, também sinto os músculos do rosto tensionarem, às vezes na minha própria voz posso notar que algo está errado, é como se minha voz ficasse mais trêmula. Pode soar estranho dizer assim, mas acho possível falar que sinto minha depressão nos ombros, é uma expressão somática do estado psíquico. Não há como pensar e resolver a depressão. É claro, às vezes vem um pensamento horrível na sua mente, mas antes desse e qualquer pensamento surgir ele já está no corpo.

            Então o lance é destacar do pensamento e ver onde, no corpo, está armazenada a tristeza.

            É claro, uma vez e somente uma vez você tendo relaxado o corpo, você pode refletir sobre coisas mais sábias do que remoer os pensamentos depressivos. Você pode pensar nas coisas generosas e positivas que você já fez ou pensar nas pessoas e coisas pelas quais você é grato. Mas isso tão somente após o corpo estar aliviado.

            Do contrário o pensamento apenas transforma a ideia depressiva original numa bola de neve… daí nós entramos no que os psicólogos americanos chamam de “dissociação”.

            O processo pode ser interrompido se aprendemos a nos destacar do pensamento e a voltarmos para o corpo.

            Claro, não dá para você esperar até estar desesperado, daí tudo fica mais difícil. Mas com um pouco de prática você percebe a melancolia, você nota onde ela está no corpo, você alivia isso e evita chegar nos piores estágios de desespero.

            Isso é o que eu pude reunir sobre como a depressão acontece. É um processo causal cujo elo mais fraco é justamente essa passagem do corpo para o pensamento. A resolução é um processo também de retorno ao corpo, de voltar para a sensação física, de abraçar o sentimento (mesmo que ele seja negativo), porque do contrário a gente vai querer reprimir a sensação e daí não vai funcionar. Você se volta e se abre para o que está sentindo, em outras palavras, você aceita aquilo no seu corpo, depois relaxa e retorna à tranquilidade.

            Certo. E aqui vou começar a vender meu peixe. Porque quando a gente lê, em alguma medida, a gente também se destaca do nosso pensamento. Quando o texto que a gente lê é próximo da gente, e é em alguma medida corriqueiro, a gente não se distancia muito do nosso pensamento. Mas quando o texto é profundo, ele acaba pedindo que a gente tome uma distância do nosso pensamento corriqueiro.

            E essa coluna o Winesburg, Ohio preenche com perfeição. O texto é simples, no sentido em que ele é claro e sem muitos ornamentos. Mas como já diziam, a simplicidade é o traço do gênio, assim como a nudez é o atributo da beleza. Sherwood Anderson apresenta várias histórias sobre personagens dessa cidade fictícia sempre de maneira direta, clara, simples, sem ornamentos… mas é profunda, porque busca o universal nesse recorte provinciano.

            É preciso ressaltar que os personagens de Anderson são na maior parte figuras solitárias à parte da sociedade, são o que a gente costumava chamar de personagens alienados. Vamos pegar o caso de Wing Biddlebaum.

            O primeiro personagem, no primeiro conto de Winesburg, e também um dos mais famosos do livro, é a história de Wing Biddlebaum. Esse personagem era um professor numa outra cidade, mas foi acusado injustamente de assédio sexual; teve que fugir para não ser linchado. Em Winesburg, ele se resume a trabalhar nas colheitas com suas mãos ágeis (as asas, ou wing, do apelido), e vive quase que absolutamente solitário, não fosse pelas visitas de George Willard, o jovem repórter da cidade, e elo condutor entre todos os personagens dos contos de Winesburg.

            Biddlebaum é um alienado, alguém excluído pela boa sociedade da cidade, alguém que convive com uma solidão praticamente avassaladora. Sherwood Anderson convida os leitores a observar mais atentamente a vida do pobre Biddlebaum. Não se trata em absoluto de um personagem mau, como de resto em Anderson não há nenhum maniqueísmo fácil. Trata-se de um sonhador, talvez até mesmo de um idealista, que se viu logrado pelos contornos da vida.

            Ler, e ler de fato uma obra-prima literária como este primeiro conto de Winesburg, Ohio envolve a capacidade de empatia por uma vida humana marcada pelo sofrimento. O personagem de Wing Biddlebaum, para ser apreendido, pede um destaque do nosso pensamento mais corriqueiro, mais imediato, mais comum. Quando estamos exercitando a empatia, não estamos exatamente pensando em nós mesmos, exceto que estamos vendo a nós mesmos em outra pessoa. Ou, no caso de Winesburg, Ohio, num personagem de maneira humana e compassiva, mas sem ser sentimental.

            Sherwood Anderson é mestre nesse olhar que pede compaixão sem ser piegas. Foi nisso, talvez até mais do que no estilo, que influenciou autores como Faulkner e Hemingway. Foi nessa maneira de ser humano com seus personagens… e, ao ser humano com eles, o Sherwood Anderson abre um espaço para uma reflexão nos leitores.

            Digo “uma reflexão” porque bem pode ser algo um pouco distinto. Mas é, ainda, o tipo de reflexão que faz com que a gente se destaque do nosso próprio pensamento.

            Tem autores que a gente lê e não chega a deixar nossas preocupações de lado. Eu, por exemplo, não gosto de ler jornal de manhã; porque se logo acordo e leio o jornal, é como se meus pensamentos corriqueiros se emaranhassem uns nos outros devido aos textos prosaicos que estão muito próximos das nossas preocupações diárias. O bom mesmo – é o que eu sinto – é começar o dia lendo os antigos, ou algum clássico. E Sherwood Anderson é um clássico moderno. Ele não está tão distante assim da gente – um século não é quase nada em termos de história – mas consegue fazer com que nosso pensamento se “destaque” para retornamos à sensação somática.

            Isso quer dizer que ler Winesburg, Ohio vai tirar alguém da cama se estiver deprimido? Acho um pouco difícil falar isso. Mas é bem plausível falar que pode prevenir uma série de disposições depressivas.

            É que os personagens de Winesburg são sofredores. Nós podemos conhecer e reconhecer neles os traços das outras pessoas que existem à nossa volta. E aí a gente percebe que o MEU sofrimento, porque o que aconteceu COMIGO, porque o MEU problema e essas coisas todas são, no fundo, universais. Elas acontecem também com as outras pessoas. Elas acontecem com todo mundo.

            O mérito literário de Winesburg, Ohio, portanto, é sobretudo um mérito humano, como, de resto, em todas as grandes obras artísticas. Tem um lugar em que o valor puramente literário do livro se converte num arcabouço humano, e é por esse motivo que os grandes livros são tesouros da humanidade.

            Tem uma coisa que eu incluí na quarta capa da nossa edição do Winesburg, Ohio que é uma frase de Tolstói. Ela diz: se você quer ser universal, pinte sua aldeia. E a frase se encaixa perfetamente no caso do Sherwood Anderson. Ele escreveu sobre as cidadezinhas do Meio-Oeste norte-americano e construiu uma obra que fala sobre todos os lugares e sobre todos os tempos. Que alcança, portanto, o universal.

            Obras como essa são poucas e aparecem só de vez em quando. E tem uma imensa potência: uma potência para ligar os leitores aos destinos de seus personagens, uma potência de permitir entrever nos dilemas no livro os dilemas da vida e uma potência de educar o sentimento de quem convive com seu conteúdo. Porque esses grandes livros pedem uma convivência, pedem que a gente esteja junto do que eles dizem e, mais ainda, do que eles fazem.

            Não sei se consigo ser convincente com minhas pretensões a biblioterapia, mas quando falo em educar o sentimento, isso certamente está presente em Winesburg, Ohio. Os personagens da obra são, na maior parte das vezes, solitárias, e eu diria até mesmo que a solidão é um dos temas do livro. E há todo tipo de solitário, que fique claro. Desde os que praticamente enlouqueceram com a solidão, até os que se veem presos nela em meio à sociedade. Há os que sofrem com ela. Há os que aprenderam a viver com ela. Mas o que é que tem no livro exatamente que é mais poderoso do que simplesmente ler sobre o assunto? É que os personagens, por mais que apenas letras num papel, têm também sua vida.

            Para não complicar muito, eu diria que personagem é um conjunto de ações e de falas numa certa clausura no texto. E isso é como nossa vida. Nós falamos de um jeito e nós agimos de um jeito, e essa característica é que nos marca como sendo de uma maneira ou de outra. Quando travamos contato com personagens – e digo personagens como os de Winesburg, Ohio, redondos, tridimensionais, muito longe dos estereótipos que muitas vezes encontramos – aí quando encontramos esses personagens estamos nos educando sobre a vida: sobre o que nela é variável e sobre o que nela é constante.

            E estamos nos desapegando e nos desligando um pouco da fixação com o que é nosso: com dizer sempre EU, e MEU e COMIGO. Quando aprendemos a não identificar nossos pensamentos com nós mesmos, já estamos dando um passo imenso para nos prevenir das maiores tristezas da existência. A boa literatura participa desse processo, no sentido em que nos permite nos destacar de nossos pensamentos e contemplar o objeto que nos propõem. Esse objeto, no caso de Winesburg, Ohio, é um microcosmo repleto de solidões e de esperanças, o estofo que nos faz humanos em nossos íntimos.

            No começo eu citei Benjamin e falei em conquistar sem concepções. Não sei se consegui ser um bom vendedor e promover o meu peixe, afinal de contas, parece um pouco exagerado supor que um livro funcionaria como vacina contra a depressão. Mas pode funcionar. Existem muitas coisas fabulosas no domínio da literatura e da arte em geral, e eu não me espantaria se um bom leitor e um bom crítico estabelecessem todos os elos entre a melancolia e sua prevenção em Winesburg, Ohio. De minha parte, estou bem certo que as grandes obras podem, como falei, educar o sentimento. Talvez pouco conhecido no Brasil, Winesburg, Ohio de Sherwood Anderson se encaixa nesse critério e, portanto, torna o mundo um lugar menos depressivo, e – por que não? – menos solitário.

 

Obrigado a todos.

Nils Skare

 

SOBRE A COMUNICAÇÃO ASSÍNCRONA

SOBRE A COMUNICAÇÃO ASSÍNCRONA

A ascensão da internet como poderosa mídia para a interação social nos nossos dias viu a disseminação da chamada “comunicação assíncrona”. É a famosa comunicação por textos (ou, por vezes, de mensagem de voz sem um diálogo), em que a relação entre a fala de A e a fala de B se dá sem uma conjunção no tempo e no espaço, sem uma imediaticidade entre estímulo e resposta, em outras palavras, sem uma sincronia.

Isso desperta novos problemas e novos hábitos. Como, por exemplo, se perguntar se Fulano “já leu” a mensagem, e saber em que medida pretende fazer algo a respeito. Problemas simples que poderiam ser resolvidos se as pessoas estivessem de fato numa relação comunicativa surgem.

A verdade é que nós, seres humanos, somos animais de matilha. Nós não temos dentes ou garras, nem sabemos cavar buracos ou subir em árvores muito bem, de forma que nossa vantagem evolutiva é o fato de nos conectarmos uns com os outros e agirmos em conjunto.

Uma parte do nosso cérebro, uma das mais recentes evolutivamente – o neocórtex – diz respeito a essa incrível capacidade que temos para a linguagem e para a comunicação. Em outras palavras, é o fato de sermos bons em nos comunicar uns com os outros que ajudou a nos tornar a espécie dominante no planeta.

Os seres humanos funcionam através de corregulação emocional. Quando estamos presencialmente com uma pessoa e conversamos com ela, nós emitimos pequenos sinais faciais e corporais que espelham o que a outra pessoa está sentindo e pelo que está passando. Além, é claro, de podermos falar “no calor do momento” algo que diz respeito ao que podemos corregular.

Existe um certo contágio na vida social humana. Quando estamos entre pessoas assustadas, ficamos assustados. Quando estamos entre pessoas enfurecidas, tendemos a ficar também enfurecidos. Não há nada demais nisso, e vários comportamentos de massa podem ser explicados por essa simples noção de contágio.

Mas isso explica também por que é tão importante essa corregulação. Se estamos ansiosos e conversamos com um amigo, ele ajuda em nossa regulagem emocional, dizendo que sabe do que estamos falando, emitindo sinais de tranquilidade e reconhecendo nossa aflição. Nós nos sentimos compreendidos e também nos sentimos melhor.

Para usar numa pergunta uma expressão que ouvi de um amigo recentemente, quanto do nosso sofrimento psíquico não se deve em grande medida à atomização na sociedade liberal-burguesa? A comunicação assíncrona concorre para isso. Ela nos rouba da possibilidade de experimentar um tempo conjunto.

Assim como podemos falar em idioletos para a maneira peculiar como cada indivíduo vivencia a língua e forma uma espécie de dialeto próprio, também é como se vivessemos em “cronoletos”, cada um com seu tempo, esbarrando na disposição dos outros para responder às nossas mensagens.

A ausência de corregulação emocional nos torna vítimas mais fáceis de estados psíquicos negativos poderosos, como a ansiedade e a depressão, que muitas vezes são apenas uma bola de neve que não foi parada quando ainda era pequena.

Além do quê, a ausência de corregulação numa comunicação dá margem a uma expressão que, se vamos analisar com clareza, é bem mais cruel. As pessoas escrevem em mensagens (especialmente em grupos de What’sApp) barbaridades que jamais diriam numa conversa educada; depois, é claro, acreditam no que escreveram e adotam condutas impensáveis para uma época pré-internet.

Por isso, por que não pegar o telefone e passar 15 minutos conversando com um bom amigo de voz para voz?

 

LANÇAMENTO DA SÉRIE ‘FICÇÃO ESPECULATIVA’

A L-Dopa Publicações está lançando este mês uma nova série de livros, voltada para a ficção especulativa. Para quem não sabe, “ficção especulativa” é o termo anglo-saxão (agora incorporado em nossa língua) que engloba a ficção científica, a fantasia e o horror. São três livros por enquanto: “A Arma & outros contos” de Philip K. Dick (chamado de “Shakespeare da ficção científica”), “Juventude & outros contos” de Isaac Asimov (figurinha incontornável que publicou mais de 500 livros) e “O Apelo de Cthulhu” de H. P. Lovecraft (que todo fã de horror já ouviu falar e agora pode conhecer). São histórias repletas de naves e robôs, monstros e alienígenas, mas que também inspiram o leitor a especular sobre a realidade que nos cerca.

 

Philip K. Dick – “A Arma & outros contos” 

            Philip K. Dick é considerado pelo crítico Frederic Jameson como o “Shakespeare da ficção científica”. Nesta antologia, o autor comparece com 8 contos de sua fase inicial da carreira. O texto que dá título à coletânea, por exemplo, é a história da tripulação de uma nave espacial que precisa descer num planeta destruído por uma guerra atômica; mas um dos canhões permanece funcionando, então como decolar novamente? O primeiro conto da antologia, “A Caveira”, trata da história de um assassino marciano que é enviado de volta no tempo para matar o fundador de uma igreja antes que ele se pronuncie. São histórias repletas de robôs, naves, alienígenas e alta tecnologia, mas o tempo todo Philip K. Dick está se perguntando pela natureza da realidade, sua preocupação maior. O livro acompaha ainda um posfácio com estudo de Nils Skare, tradutor do livro.

P. Lovecraft – “O Apelo de Cthulhu & outros contos”

         P. Lovecraft é sem dúvida um dos maiores nomes da literatura de horror, e conhecido por todos os amantes das histórias que inspiram medo. Seu “O Apelo de Cthulhu” é a história da descoberta de seres pavorososo que habitam nosso planeta desde tempos imemoriais, sendo sua existência comprovada por cultos maléficos ao redor do mundo. Chamamos a atenção nesta coletânea também para “A Cor que Caiu do Espaço”, um dos contos mais inventivos do autor, que fala sobre um bizarro meteorito que cai numa propriedade agrícola e espalha o terror – lentamente – pela região. O estilo de Lovecraft é marcado pelas revelações que se dão aos poucos. O livro acompaha ainda um posfácio com estudo de Nils Skare, tradutor do livro.

Isaac Asimov – “Juventude & outros contos”

            Isaac Asimov é uma das grandes referências da literatura de ficção científica de todos os tempos, tendo escrito em torno de 500 livros. “Juventude” é um conto em que o mestre se exercita na forma curta ao tratar de uma raça alienígena que aguarda a chegada de uma tripulação de outro planeta para criar uma rota de comércio que poderá salvar sua espécie da estagnação. O conto “Piadista”, por exemplo, também incluso na coletânea, fala sobre um supercomputador que é usado para descobrir a origem e a natureza das piadas – o resultado é assombroso. Como sempre em Asimov, os textos primam por uma clareza e transparência de estilo. O livro acompaha ainda um posfácio com estudo de Nils Skare, tradutor do livro.